"Mas ser-no-mundo não quer dizer que o homem se acha no meio da natureza, ao lado de árvores, animais e outros homens...É uma estrutura de realização...O homem está sempre superando os limites entre o dentro e o fora." Heidegger
Ser no mundo é estar com e para o mundo a todo momento, a partir do momento que existimos, estamos inerentes à essa relação. O que confirma a nossa existência, são as mais diversas formas com que nos relacionamos com as pessoas e com as coisas. Tudo está ligado a tudo. No momento em que penso isso ou sinto aquilo, estou me referindo a algo ou alguém, eu só existo porque o outro existe. "As coisas não podem ser sem o homem e o homem não pode ser sem as coisas que encontra."
"Mesmo o estar só, é ser-com no mundo. Somente num ser-com e para um ser-com é que o outro pode faltar. O estar só é um modo deficiente de ser-com."- Heidegger. O mundo é sempre um mundo compartilhado com os outros.
O que tudo isso quer dizer, é que nós temos a capacidade de nos compreendermos mútua e imediatamente, por sermos essencialmente semelhantes, embora na forma concreta do nosso existir, cada um apresenta-se com suas peculiaridades em seu perceber, compreender e comportar-se. Assim, no encontro de um ser com o seu semelhante, ocorre uma relação de reciprocidade, na qual ambos influenciam-se mutuamente, isso é o que torna o ser humano diferente dos animais e das coisas, esse funcionamento, deixa claro que o ser humano tem consciência de si e do mundo. Se não fosse pela oportunidade de nos relacionarmos com outros seres humanos, não conheceríamos as nossas potencialidades como o amor, a responsabilidade e a liberdade, é só porque podemos coloca-las em prática, que também somos capazes de desenvolve-las.
As nossas relações de contato, de comunicação com as pessoas, começam através do nosso próprio corpo, inicialmente, percebemo-nos e comunicamo-nos mutuamente por meio de contatos e expressões corporais, gestos e atitudes, depois introduzimos a linguagem, afinal, essa é própria do contato com os seres humanos. Porém, seja a linguagem que for, só existe porque nós somos seres com e para, existimos em relação a algo e a alguém.
Aí vocês devem estar se perguntando... "e o mundo próprio? não existe um mundo próprio?". O mundo próprio consiste na relação que o sujeito estabelece consigo mesmo, nos termos utilizados aqui, seria o seu ser-em-si-mesmo, na consciência de si e no autoconhecimento. Porém, ainda que exista a sua relação no ser-em-si-mesmo, o ser humano é um ser-no-mundo, ou seja, sempre é uma pessoa com características próprias, em relação a algo ou a alguém. São as vivências e experiências que cada pessoa tem ao longo da vida, relacionando-se com o mundo e com os outros, que vão tornando-lhe capaz de atualizar e desenvolver suas potencialidades, dando-lhe condições necessárias para ir descobrindo e reconhecendo quem é. Ao passo que a pessoa vai desenvolvendo suas noções de autoconhecimento, vai da mesma forma, ampliando suas noções sobre o mundo que a cerca e as suas formas de ser e estar nele. E esse funcionamento acontece em um fluxo contínuo, estamos constantemente existindo, sempre em direção daquilo que pretendemos ser. As nossas características, qualidades...não se limitam aquilo que já fizemos, embora nosso passado forneça elementos importantes para nos conhecer, não fixa a forma de ser, pois estamos sempre prontos para nos modificar, compensando erros ou aperfeiçoando virtudes.
Isso me faz pensar no termo autotranscendência, que é a capacidade que o ser humano tem de transcender a situação imediata, de ultrapassar o momento concretamente presente, o aqui-e-agora, o espaço e o tempo. Com isso, podemos trazer o passado e o futuro para o instante atual de nossa existência e nos reconhecermos como sujeitos responsáveis por nossas escolhas e decisões. Diria que essa capacidade é base da nossa liberdade, pois, permite com que voltemo-nos para o nosso passado e ao mesmo tempo, lancemo-nos ao nosso futuro para refletirmos e avaliarmos nossos próprios recursos e as possibilidades que temos para enfrentar não só a situação imediata, mas, para ir através da imaginação, muito além dela. A existência nos proporciona uma enorme variedade de possibilidades para escolhermos como vamos nos relacionar com o mundo. O tal mundo próprio, então, teria como função, o pensar. O pensar engloba todas as funções como a linguagem, o entendimento, o raciocínio, a memória, a imaginação, a intuição, a reflexão...Platão já dizia, "pensar é conversar com um tema, penetrando-o, é o diálogo da alma consigo mesma...Pensar é uma fala que a alma realiza sobre o que quer investigar...O pensamento se dispõe, por sua própria essência, a poder dialogar com os outros...o monólogo já é uma forma de diálogo."
Bom, toda essa reflexão, é para trazer a importância de nos olharmos como seres humanos que somos, sem diferenças, afinal, se todos existimos, a forma de ser e estar no mundo, particular, de cada um, é o que nos torna capazes de nos relacionar, de buscar a transcendência do ser-no-mundo, de entrelaçar existências, tornando-as em sermos-com-e-para-o-mundo, numa forma sintonizada, que mais do que sermos e ponto, sermos seres-com-e-para-o-mundo-e-além-do-mundo, assim, é que podemos finalmente chegar ao amor, a forma fundida, dual, de ser e estar no mundo. Binswanger disse que o amar, é um modo peculiar de existir, no qual o ser humano vivencia a plenitude de suas possibilidades, encontrando-se profundamente enraizado no solo de sua existência, em paz consigo e com o mundo, destituído de desejos e intenções. Para ele, no amor e somente no amor, a pessoa é capaz de experienciar como uma totalidade, a finitude e o infinito, o fato e a essência...No amor, se realiza o verdadeiro "nós", no qual cada parceiro é criador e simultaneamente ativo e passivo, masculino e feminino...Esta inconcebível e inexplicável qualidade do amor é um mistério que se realiza no duplo milagre de amar e ser amado.
Dizem por aí que é preciso ter coragem para ser, porém, já somos...o que podemos fazer? O ter que escolher e ter que assumir as escolhas, traz um sentimento de apreensão, de uma falsa liberdade, mas, é só lembrarmos que da mesma forma que são infinitas as possibilidades, está em nossas mãos a capacidade de transformar, não temos o que temer. Precisamos ir e ficar a todo momento, para não cessarmos nunca o movimento de atualização das nossas capacidades. E mais do que isso, para nunca cessarmos a busca por um ser-no-mundo-e-para-o-mundo-e-além-do-mundo, num encontro de dois seres completos, que transcendem e mesmo que por instantes, são capazes de viver o amor.
Taynã Lizárraga Carvalho
Esse é um espaço criado para compartilhar pensamentos e desenhos que saem dessa cabeça que vos escreve. Pensamentos sobre o ser humano e suas formas de ser e estar no mundo. A idéia é expandir os meus pensamentos e tocar não só aqueles que fazem parte das minhas redes sociais, mas àqueles todos que tiverem interesse. Além disso, aproveito para trazer uma ressalva à importância da expressão, tenha a forma que for! Então, sejam bem vindos aos rascunhos da minha cabeça inquieta!
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