terça-feira, 4 de junho de 2013

Expressar-se é preciso

Hoje acordei sentindo a necessidade de falar sobre a importância de expressarmos o que sentimos, escolhi para exemplificar o tema, um sentimento recorrente nos seres humanos e muitas vezes difícil de ser aceito, a raiva. 

A raiva é um sentimento normal, honesto. Quem nunca sentiu raiva? A questão está no que fazemos com esse sentimento, na forma com que o acolhemos e o expressamos. Desde cedo aprendemos a qualificar os sentimentos, as coisas, rotulando-os de forma positiva ou negativa. Porém, também é desde cedo que experienciamos a contradição desses rótulos, pois, é feio sentir raiva e expressa-la, mas presenciamos diariamente a sua expressão, em casa, na escola, na rua, com pessoas próximas ou não, direta ou indiretamente. Habitualmente, a privação do expressar da raiva é aplicada às crianças, que consequentemente vão aprendendo a suprimir esse sentimento como resposta ao desagrado dos pais, ou desenvolvendo outros sentimentos no lugar, como a culpa, a vergonha, por ter feito algo tido como "feio". A raiva é manifesta o tempo inteiro em todos os meios de contato em que não só os adultos, mas todo e qualquer ser humano tem acesso. O resultado desse contato inevitável e privado ao mesmo tempo, é a fascinação que as crianças desenvolvem pelo sentimento e a facilidade de transformar aquilo simbolicamente em algo terrível, que deve ser sempre evitado. Evitar esse sentimento, é privar a expressão dos sentimentos autênticos, nós temos a necessidade de colocar para fora o que sentimos, como forma de ressignificar o sentimento. Todos os nossos sentimentos, envolvem o uso da energia física expressa através das funções musculares e corporais, portanto, a raiva que não é manifesta de forma direta, inevitavelmente, será manifesta de alguma outra forma, que provavelmente, será prejudicial a nós mesmos. Mais uma vez, entramos numa questão social/cultural de significados. Bom x ruim, bem x mau, feio x bonito, são rótulos criados para nos encaixar num padrão de comportamento aceitável pela maioria. Será verdade? Será que essa padronização da normalidade é saudável? Posso afirmar que não. O poder expressar o sentimento, é também exercício de encarar a própria realidade, o próprio eu, a singularidade, o ter consciência dos próprios sentimentos e como lidar com eles. Reconhecer os sentimentos é essencial para fortalecer o nosso eu inteiro, para desenvolver a capacidade de ser e estar no mundo por si só, de cuidar de si mesmo e seguir em busca do bem estar e harmonia. Esses rótulos, nos induzem ao pensamento de que os caminhos para chegar ao lugar saudável, deve ser difícil, enquanto na verdade, os caminhos são simples e claros. A dificuldade está na comunicação falha que os seres humanos desenvolvem a partir do momento que aprendem a privar-se de sentimos e expressões. O excesso de cautela no contato com o outro impede a veracidade do contato e assim criamos um ciclo vicioso de opressores e oprimidos. Dessa forma, as pessoas tornam-se cada vez mais frágeis, os contatos cada vez mais superficiais e aumentamos significativamente o número de doenças somatizadas pela necessidade de manifestação dos sentimentos. Já dizia Freud, "...se a boca se cala, falam-se as pontas dos dedos."

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